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13 de março de 2010

não se passa nada

"Nunca me leves muito a sério, eu."
Se for para continuar assim, o melhor é arranjares um diário, ou começares um romance. Mais seis meses disto e olha que já vale a pena. E não, uma tese não é um romance, é só uma tese, eu.
Just cause you feel it, doesn't mean it's there
Descalça-te miserável aos pés da cama, mas lembra-te que um dia destes, quando a cigana do sinal veio ter contigo, riste-te, presunçosa. Ouvias nick cave e a luzinha virava verde, milagrosamente verde: "com licença", só com gesto, "hoje Tenho a Minha Sorte".
Toma lá, hoje é dia Também.

9 de março de 2010

meia linha

"In the 1990s, bioethical equipment was designed to protect human dignity, understood as a primordial and vulnerable quality. Hence its protocols and principles were limited to establishing and enforcing moral bright lines indicating which areas of scientific research were forbidden. A different orientation, one that follows within a long tradition but seeks to transform it, takes ethics to be principally concerned with the care of others, the world, things and ourselves. Such care is pursued through practices, relationships, and experiences that contribute to and constitute a flourishing existence (eudaemonia). (...) The question of what constitutes a flourishing existence, and the place of science in that form of life - how it contributes to or disrupts it - must be constantly posed and re-posed in such a form that its realization becomes more rather than less likely."*

Soa bem, mas
a democracia é uma alhada.

7 de março de 2010

mãe, arranja-me uma linha para esta agulha

É uma febre por resolver, eu sei. Compreendam que tenho um pé na arte, outro na tecnologia e os joelhos na política. Em cima do monte, uma cabeça que se matuta por orientação, que não sabe mandar só por mandar e ir mandando, está sempre a exigir justificações - que não avanço um metro sem pensar nos outros metros e isso talvez me atrase. Na pior das metáforas florestais, podia galgar as lamas e enfiar-me já espinhos adentro; olhem, vou-me distraindo com ambas. Sujo os sapatos e pico os dedos, sujo os dedos e pico os sapatos. Não me tenho livre o suficiente para não querer mais do que a empiria -se é que isso é liberdade - e sei bem que ir ficando por aqui pode fadar-me a isto: a ir ficando por aqui. Mas ora bem, cada um é cumué. Por cada um ser cumué (sim, uma das poucas certezas da vida (?)), trago e retrago as minhas angústias do universal e do relativo. "A Ciência" visita-me como um poema de Onan, a sensibilidade às gentes ensina-me outras coisas. Então, a querer ser qualquer coisa como antropóloga, eu não sei. Já disse que não creio que a lua seja uma cabaça, mas também não vejo estupidez nisso - e não, não estou a ser correcta. É menos útil.
Utilidade. Penso tantas vezes nela. Numa humanidade madura, todos políticos, todos responsáveis, sem merdas ideológicas que não o ir fazendo, por Nós. Temo ter certeza de que nunca nos sentaremos à mesa.

Catalisador: The totalitarian science

14 de fevereiro de 2010

nunca te metas nos papers

é de pressão automática

E faz um ano que o soldados nasceu e eu não tenho nada a dizer sobre isso. Estou trancada em casa porque tenho mais que fazer do que ver os outros felizes e a divertirem-se. Dose dupla. Homens de mulher a beijar mulheres de homem e batmans com caniches e biquinis com frio e tamborzinhos, muitos tamborzinhos no samba e samba em cima dos tamborzinhos. Tomem lá jazz.

21 de janeiro de 2010

amor romântico ocidental

Disse-me «Oh, deixa lá, é só um modelo...»,
como se cultural fosse diferente de psicológico e menos que real.

27 de dezembro de 2009

verdadeiros bloggers não se refugiam na wonderland

Cá estou eu, tantos dias depois. Há temas tabu no soldados e Dezembro esteve carregado deles - s*smo, Copenh$ga, fr*o, N$tal... Aviso, por honestidade, que não sei definir esta zona cinzenta; trata-se apenas de um conjunto de coisas das quais não me apetece falar, nas quais não me apetece sequer pensar e então faço de conta que não as vivo. Talvez seja antes uma disposição. Não, é mesmo antes uma disposição. É quando o cheiro do jornal enjoa-me e faço de conta que não vejo os feeds do Público. Sei dos murros ao Berlusconi pela mãe. Processo em memória de peixe a informação que parece propensa à repetição exaustiva, gratuita e non grata nos dez dias seguintes da minha vida social e vegetativótelevisiva. De vez em quando olho para o tecto e pergunto-lhe: «Quando é que isto passa?».

Ao mesmo tempo tenho uma lista imensa de tarefas a cumprir, começo pelas mais afastadas da realidade: bebo "chá" de chocolate com chili, visto um roupão com mangas laranja fluorescente, quase-deixo de fumar, mudo as argolas, leio Silicon Second Nature e Asimov, bebo mais "chá".

Há bloggers que parecem nunca passar por isto. Têm sempre opinião e bom gosto, lêem tudo, vão a todo o lado, têm os meus pontos negros em amigos, escrevem trinta mil posts por ano, todos brilhantes. É que não é como se a minha vida fosse incrivelmente excitante para além do que aqui sou, ou um caso de other people’s lives seem more interesting, cuz they ain’t mine. É que não é nada disso. Bah.
Mas quê, falta-lhes uma perna, ou assim?

17 de novembro de 2009

tornou-se pessoal

Este post foi removido pelo autor e só sobrou isto:

Bachelorette

Bjork

25 de outubro de 2009

Tour de France

Latour, Latour, Latour.
Mas se nós nunca fomos modernos, porque raio, eu pergunto, PORQUE RAIO insistes em libertar-nos de categorias com mais de dois mil anos? Acaso somos estúpidos? Acaso és tu, ou andas a enganar-nos?

(Às vezes acho que os autores inventam problemas para serem os primeiros a resolvê-los.)

coisa que me tira o sono

"Modern man a wimp says anthropologist"
Reuters, 14/10

As mulheres estão cada vez mais bonitas, confiantes e cultas.
Os homens, para além de estudarem menos, estão a ficar flácidos.
Isto é coisa que me tira o sono (e o sexo).

19 de outubro de 2009

tarde demais. já me devem ter deserdado, e às escondidas.

Hey Mom & Dad...

The Anthropology Song: A little bit Anthropologist
Dai Cooper, via antropologi.info

A pedido de três indivíduas: Aviso: «Tento, pode ofender» .
(compreende aqui)

estranhas empatias parte dois


O sistema de artrose como ele não é e as tartarugas de Grey Walter.

1 de outubro de 2009

protocolo

Galloway, Alexander R. 2006 Protocol: how control exists after decentralization. MIT Press.

"Is the Internet a vast arena of unrestricted communication and freely exchanged information or a regulated, highly structured virtual bureaucracy? In Protocol, Alexander Galloway argues that the founding principle of the Net is control, not freedom, and that the controlling power lies in the technical protocols that make network connections (and disconnections) possible. He does this by treating the computer as a textual medium that is based on a technological language, code. Code, he argues, can be subject to the same kind of cultural and literary analysis as any natural language; computer languages have their own syntax, grammar, communities, and cultures. Instead of relying on established theoretical approaches, Galloway finds a new way to write about digital media, drawing on his backgrounds in computer programming and critical theory. "Discipline-hopping is a necessity when it comes to complicated socio-technical topics like protocol," he writes in the preface." (...)

Foreword: Protocol Is a Protocol Does, by Eugene Thacker
Lamento, mas não és um radical livre.

27 de setembro de 2009

15 de setembro de 2009

elixir recomendado

A minha relação de amor-ódio com [aquilo que conheço d]a obra de Michel Foucault tem sido assunto depositado na folha do soldados com alguma recorrência, de forma mais ou menos explícita. (Serão as dúvidas teóricas que me assaltam de banana e corta unhas as substitutas das crises existenciais de adolescência, na dinâmica da minha vida? Não.) Pois bem, quis o destino, ou um professor generoso, que me encontrasse com um texto fantástico, uma espécie de contrafeitiço: Michel Foucault, Ou o Niilismo de Cátedra, de José Guilherme Merquior.

Boa sorte com a pesquisa, já que o livro parece não passar a censura do gosto académico - tão mais amigo do meu autorU/Ambiguidade -, mas façam um favor a vocês mesmos, se partilharem do interesse, e sejam perseverantes! (Podemos sempre pensar noutras opções, já que não reconheço ilegitimidade na circulação de informação...) É uma crítica incrível: mais do que apresentar as incongruências, ou mesmo os erros, nos trabalhos de Foucault, Merquior explica-os! Explica a obra pelo contexto, conhecedor distanciado, sempre sereno e com muito humor. Mostra quando aquele diz mais do mesmo, citando nomes familiares, mostra também quando é que é novo - afinal não tantas vezes. E ninguém fica mal visto. Então Foucault passa a ser mais um homem - mais um homem, ha!

Termina assim:
“Leo Strauss costumava dizer que, nos tempos modernos, quanto mais cultivamos a razão, mais cultivamos o niilismo. Foucault demonstrou que não é absolutamente necessário fazer a primeira coisa a fim de alcançar a segunda. Ele foi o fundador de nosso niilismo de cátedra.”

3 de setembro de 2009

coisa que a lua certamente não é

No ano que passou li muito construtivismo e uma série de proto-ideias que permitiram os estudos sociais de ciência como hoje os conhecemos. Compreender a inscrição da ciência na cultura e nas relações sociais – ou seja, que não é descomprometida ou isenta de contextualidade, sendo reflexo de intersubjectividades com a sua agenda intelectual particular, equacionada junto de meios, pré-disposições e expectativas –, levou algum tempo e é uma marca do século XX, especialmente do pós-guerra. (Mais recentemente, questiona-se com insistência as fronteiras entre natureza e cultura, “o passo a seguir”, mas esta é uma história a que quero dedicar-me num outro dia.) Diria que o projecto pós-moderno é uma mega-depuração, em vez de uma contra-depuração, no sentido em que desemboca num relativismo às vezes insuportável. A certa altura dei por mim aflita por não conseguir pensar doutra forma senão em termos de discursos e poder, de grandes novelas históricas, com a realidade sempre por incerta e uma enorme descrença no conhecimento científico por referência de verdade. «Então mas as coisas são apenas aquilo que dizemos que são?»
Por hipocrisia e etnocentrismo, estes princípios não me causaram grande incómodo enquanto circulava pelas “construções ocidentais” da anorexia, da loucura e genialidade, da divisão mente-corpo… – ao fim ao cabo, parecem-me sensatas e vivíveis, independentemente do seu estatuto de verdade. O problema levanta-se quando descubro a controvérsia da lua, com mais de dez anos, entre Richard Dawkins e alguns antropólogos (sem que se aplique apenas a estes):

Dawkins had once asked a social scientist about a hypothetical tribe that believed that the “moon is an old calabash tossed just above the treetops.” Did he really believe that that tribe’s view would be “just as true as our scientific belief that the moon is a large Earth satellite about a quarter of a million miles away?” The social scientist replied, according to Dawkins, that “the tribe’s view of the moon is just as true as ours.” (daqui).

Ora, este momento anedótico dá a Dawkins a inspiração necessária para escrever “The Moon is not a Calabash” (ao qual, muito infelizmente, não consigo aceder), e, de facto, bolas, tenho de apoiar o cretino dos memes, A Lua Não É Uma Cabaça! A mesma pessoa que aceitava a esquizofrenia como uma total construção, uma existência social (as minhas únicas reservas prendiam-se com a questão do sofrimento humano, que esse não é inventado, mas pode ter os nomes que quisermos), não aceita que a tese da Lua-Cabaça seja tão verdadeira quanto a da Lua-Astro para aqueles que crêem nela, ou que a Sabem. Não, não, não, é óbvio sem nunca lá ter ido, cheirado e tocado: a lua não é tão cabaça quanto rocha!
É então tempo de repensar posições.

2 de setembro de 2009

crer e querer

"Gregory Paul, an independent researcher on evolution, and Phil Zuckerman, a sociologist at Pitzer College in California, have argued controversially that a belief in God is directly correlated with the level of what might be described as the intensity of the struggle for existence. In countries where food is plentiful, health care is universal and housing is accessible, people believe less in God than in those countries where their lives are insecure. A belief in God, and rejection of evolution, they suggest, is most valuable in those societies that are most subject to Darwinian pressures."

29 de julho de 2009

ética: humanos e robots


"Éticos querem renovar as 3 Leis da Robótica"

Interessantíssimo.

[O tag "direitos humanos" entra aqui como uma interrogação...]

7 de julho de 2009

jornal da uma, ontem

"Ahahah! [forte gargalha] Adoro estes chineses! Sempre que há merda, cortam a internet!" S.
mais


(Talvez o ultimato do fim das ilhas tenha sido precipitado; ou não.)

26 de junho de 2009

cultura, o conceito

discussão aberta a todos os neurónios

Talvez não seja a primeira vez e tenda a esquecer por ser doloroso e abalar-me do cérebro ao mindinho do pé. Mas ao fim de quatro anos de antropologia, encontramos a L. a voltar ao dicionário, para conseguir a certeza de que está enganada, que está pensar mal e que o título do trabalho ainda faz sentido.

Lembrem-me: porque raio continuamos a usar o conceito de cultura? É que se tudo o que é produção humana é cultura[l] - como é costume dizer-se, mas em código, para não dar muito nas vistas (confirmem-no no ponto9) -, desd'esta mesinha à biologia do livro da rapariga ao lado, então quando é que não é pleonástico procurá-la e/ou reflectir sobre as suas relações com o que quer que seja? Qual é o interesse? Ensinar o mundo, repetindo-o até à exaustão para ver se encaixa, usando um ou outro 'exemplo-etnograficamente-conseguido'? Não era mais fácil fazer t-shirts a dizer assumamos tacitamente a cultura?
Não deviam os nosso "pais" ter desistido da cultura quando desistiram das estruturas?


Tenho aquela sensação de estar a descobrir a roda (coisa que me acontece com alguma frequência, feliz ou infelizmente); que a minha criancice não vos canse.